O vazio que adoece quando tédio no trabalho vira doença

Enquanto o burnout ganhou notoriedade por estar relacionado ao excesso de trabalho e ao esgotamento físico e emocional, um outro fenômeno silencioso vem chamando a atenção de especialistas e, cada vez mais, do movimento sindical: o Boreout, síndrome marcada pelo tédio crônico, pela falta de desafios e pela sensação de inutilidade no ambiente de trabalho.

No setor de telemarketing, essa realidade tem se tornado cada vez mais presente. Atento ao aumento dos relatos de trabalhadores e trabalhadoras que apresentam sintomas compatíveis com a Síndrome de Boreout, o Sindicato dos Trabalhadores em Telemarketing e Empregados em Empresas de Telemarketing da Cidade de São Paulo e Grande São Paulo (SINTRATEL) defende que o tema passe a integrar o debate sobre saúde mental no trabalho, especialmente diante da nova realidade trazida pela atualização da NR-1, que reforça a obrigatoriedade da gestão dos riscos psicossociais pelas empresas.

O assunto ganhou repercussão nacional após reportagem publicada recentemente pelo jornal O Estado de S. Paulo, intitulada "Boreout: quando a falta de desafios no trabalho faz mal à saúde", que apresenta o caso de Patrícia Cotton, de 43 anos, e mostra como a ausência de estímulos profissionais pode provocar sofrimento psicológico tão intenso quanto a sobrecarga de trabalho.

O termo Boreout surgiu em 2008, a partir do livro Boreout! Overcoming Workplace Demotivation, dos consultores suíços Peter Werder e Philippe Rothlin. A síndrome é considerada uma "prima" do burnout e também do brownout. Enquanto o burnout está associado ao excesso de trabalho e o brownout à perda do sentido da atividade profissional, o boreout é provocado pela monotonia, pela repetição constante das tarefas, pela subutilização das capacidades do trabalhador e pela falta de propósito no exercício da função.

Entre os sintomas mais comuns estão fadiga constante, desmotivação, sensação de que o tempo não passa durante a jornada, perda da autoestima profissional, cansaço mental, ansiedade, tristeza persistente e, em muitos casos, quadros depressivos.

Para o diretor de Saúde do SINTRATEL, Roberto Pires, o fenômeno já faz parte da realidade de milhares de operadores e operadoras de telemarketing e, muitas vezes, acaba sendo tratado de forma equivocada.

"Isso acontece muito no nosso setor. Muitas vezes, quando o trabalhador ou a trabalhadora adoece e precisa se afastar, os sintomas acabam sendo diagnosticados isoladamente como depressão, ansiedade ou outro transtorno emocional. O que nem sempre é percebido é que esses sintomas podem fazer parte do conjunto característico da síndrome de Boreout, causada pela repetição excessiva das atividades, pela falta de estímulos e pela sensação de inutilidade no trabalho", afirma.

Segundo o dirigente sindical, é preciso ampliar a compreensão sobre os fatores psicossociais presentes nas centrais de atendimento. O telemarketing é uma atividade marcada por metas rígidas, monitoramento permanente e processos altamente padronizados. Em muitos casos, a repetição contínua das tarefas, aliada à ausência de perspectivas de crescimento e reconhecimento profissional, favorece o desenvolvimento da síndrome.

Para o SINTRATEL, a atualização da NR-1 representa uma oportunidade para que empresas, sindicatos e profissionais da área de saúde ocupacional passem a olhar com mais atenção para situações que antes eram invisibilizadas. Embora o boreout não seja citado expressamente na norma, seus fatores desencadeantes estão diretamente relacionados aos riscos psicossociais que agora devem ser identificados, avaliados e controlados pelas organizações.

O Sindicato defende que o debate sobre o boreout seja incorporado às negociações coletivas, às Comissões Internas de Prevenção de Acidentes e de Assédio (CIPA), aos programas de prevenção e às políticas permanentes de saúde mental nas empresas. A entidade também pretende promover encontros, seminários e ações de conscientização para discutir o tema com trabalhadores, especialistas, empregadores e órgãos públicos.

Para o presidente do SINTRATEL, Marco Aurélio Oliveira, cuidar da saúde mental dos trabalhadores é uma responsabilidade coletiva e um compromisso permanente da entidade.

"O sofrimento psicológico provocado pelo trabalho não pode continuar invisível. Assim como combatemos o burnout, precisamos compreender e enfrentar o boreout. A saúde mental deve ser tratada como prioridade, e a NR-1 abre um importante caminho para que empresas adotem medidas efetivas de prevenção. O SINTRATEL continuará na linha de frente desse debate, defendendo ambientes de trabalho mais humanos, saudáveis e respeitosos para todos os trabalhadores e trabalhadoras."