Exposição traz a história de um menino que, aos 14 anos, já era notícia nos jornais ituanos pelo seu dom de desenhar e pintar

 

A história é a de um menino que nasceu em 1874 na cidade de Itu. Era filho bastardo do fazendeiro da região, Abrahão Lincoln de Barros, e de uma mulher negra, Maria Clarinha de Barros, possivelmente escravizada. Certo é que Jonas de Barros tinha o dom para observar e desenhar. “Aos 14 anos, já era notícia nos jornais da cidade em virtude de suas habilidades artísticas”, conta o pesquisador e historiador Jean Gomes de Souza. “Na época, ele pintou o cenário de uma peça apresentada no antigo Theatro São Domingos e, na saída do público, à vista de todos e, em poucos minutos, o rapaz surpreendeu desenhando paisagens da escolha dos espectadores.”

 

A trajetória do artista (1874-1939) é lembrada na exposição Jonas de Barros, artista ituano, no Museu Republicano de Itu da USP. Uma iniciativa pontual para comemorar e homenagear os 414 anos de Itu, com a curadoria de Maria Aparecida de Menezes Borrego, professora e supervisora do museu, e de Jean Gomes de Souza, doutorando na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Os dois historiadores, com o apoio da equipe do museu, fizeram uma pesquisa detalhada para compor a trajetória de Jonas de Barros e a sua importância na arte e cultura brasileira.

 

“Iluminar a vida e a obra de Jonas de Barros é colocá-lo ao lado de outros artistas ituanos, como Almeida Júnior, Miguelzinho Dutra e o maestro Elias Lobo, todos com obras e objetos”, destaca o historiador. “Creio que ao percorrer o museu, conforme ele se encontra hoje, o público poderá justapor as respectivas trajetórias desses artistas e ampliar a sua compreensão do que é ser artista na província e posteriormente no estado de São Paulo entre os séculos 19 e 20. A isso soma-se a possibilidade de confrontar diferentes representações do passado paulista, para as quais o artista contribuiu.’’

Itu - Largo da Matriz, 1925, óleo sobre tela - Acervo MRI

 

Há importantes telas como Itu – Largo da Matriz, que pertence ao Museu Republicano e foi especialmente restaurada pela especialista Yara Petrella

Para orientar os visitantes a conhecerem a vida e obra do artista, a curadora Maria Aparecida destaca que a exposição buscou compor as diversas facetas do artista. “Há importantes telas como Itu – Largo da Matriz, que pertence ao Museu Republicano e foi especialmente restaurada pela especialista Yara Petrella para a exposição. Tem também Quiosque no Cambuci e Rua da Boa Morte e Rua da Glória, que são do Museu Paulista, e três retratos que compõem o acervo da Irmandade do Lar Nossa Senhora Candelária de Itu, parceira nesta mostra, homenageando os cidadãos ituanos: padre Elisiário de Camargo Barros, Octaviano Pereira Mendes e major Bento Dias de Almeida Prado.”

 

 

Quiosque no Cambuci, 1922, óleo sobre tela - Foto: Acervo/Museu do Ipiranga

Ladeira da Glória, s/data - Foto: Acervo/Museu do Ipiranga

Antiga Estação da Luz, 1880 - Foto: Acervo/Museu do Ipiranga

O público também pode conhecer a trajetória de Jonas de Barros através de uma coleção de artigos de jornal e documentos cartoriais. “A pesquisa revelou a existência de um artista plural, seja pelo trânsito entre diferentes modalidades artísticas, seja pela diversidade dos temas abordados e dos suportes empregados”, destaca Jean Gomes de Souza. “A mostra apresenta não só o Jonas de Barros pintor de retratos e de paisagens. Mas o pintor de cenário para teatro, de louças, desenhista e ilustrador de livros infantis.”

 

Entre os documentos, o historiador Souza observa: “Na certidão de óbito do artista, falecido em 1939, e na única descrição física que conhecemos, feita por um jornalista, ele é referido como sendo um homem pardo. Penso que sua condição de filho bastardo, legitimado apenas no testamento do pai, em 1898, o impossibilitou de receber educação formal no campo das artes durante a adolescência, posto que não contava com os recursos financeiros da família.”

 

Ilustração de Jonas de Barros - Foto: Acervo MRI
Ilustração de Jonas de Barros - Foto: Acervo MRI

Jonas de Barros ilustrou livros infantis, didáticos e histórias. As imagens surpreendem pela riqueza de detalhes e sensibilidade - Fotos: Acervo MRI

Certo é que Jonas de Barros atravessou muitos desafios e batalhou na vida e na arte. “A construção da trajetória histórica de Jonas de Barros evidenciou se tratar de um artista que os jornais indicavam que “estaria para acontecer”, mas que por diversas razões não se destacou como vários de seus contemporâneos”, assinala o historiador. “Tendo se fixado em São Paulo como desenhista da Comissão de Saneamento do Estado, frequentou diferentes exposições, ocasiões nas quais conviveu com Monteiro Lobato, Tarsila do Amaral, Alfredo Norfini, Alípio Dutra e José Wasth Rodrigues, pintores que assim como ele figuram no acervo do Museu do Ipiranga e do Museu Republicano Convenção de Itu. Ele próprio realizou exposições individuais em São Paulo e participou de exposições coletivas, ocasiões nas quais expôs ao lado de Cândido Portinari, Alfredo Volpi e Oscar Pereira da Silva. Na década de 1930, em seu ateliê ele guardava mais de 50 telas, para as quais, segundo ele próprio argumentou, “a situação da praça não permite a oferta dessa mercadoria”.”

 

A exposição não traz uma imagem do artista. Embora tenha pintado muitos retratos, as pesquisas não indicaram nenhum auto-retrato. “Pesquisamos, mas não há nenhuma imagem que o identifique. Nossa expectativa é de que a exposição possa atrair alguém, entre seus amigos ou familiares, que nos ajude a encontrar o seu retrato.”

 

Museu Republicano de Itu da USP, sobrado onde, em 1873, se reuniram os partidários da derrubada do regime monárquico brasileiro; ao lado, visita de estudantes ao acervo - Foto: Arquivo/USP Imagens e Divulgação/MRI

 

O Museu Republicano de Itu está, como diz a supervisora Maria Aparecida, muito inserido no cotidiano da cidade e de toda região. “Recebe, em média, 55 mil visitantes por ano. Então, de fato. é um museu querido e frequentado pelos ituanos, recebendo estudantes das escolas de toda a região e de turistas do Brasil e exterior.”

 

Para conhecer mais sobre as atividades do Museu Republicano acesse a página neste link ou clique no player abaixo:

 

 

 

 

O Museu Republicano de Itu fica na rua Barão do Itaim, 67, no Centro Histórico da cidade de Itu, em São Paulo. Aberto de terça a domingo, das 10 às 17 horas. Mais informações: (11) 4023-024 e (11) 4023-2525.