Nas duas últimas décadas, os leitores e as editoras viram crescer o número de obras de autores negros. Este movimento ocorreu em paralelo a outros dois marcos: a inclusão obrigatória da história e da cultura afro-brasileira no currículo oficial da rede de ensino e a inserção do Dia Nacional da Consciência Negra (20 de novembro) no calendário escolar (lei 10.639/2003).

 

Passados quase 20 anos, livrarias, bibliotecas e feiras de livros também ampliaram o número de títulos ofertados ao público. São centenas de opções, desde ficção, passando por biografias, até obras mais didáticas e instrutivas. Além da representatividade, esta mudança de paradigma na literatura tem ajudado a trazer consciência sobre o racismo estrutural, contribuindo na luta diária contra o preconceito. Afinal, são séculos de uma história que foi invisibilizada e começou a ser contada recentemente, tanto nas escolas quanto por meio da literatura.

 

“Desde criança, a gente aprende lendo, conhece um mundo diferente e o imaginário de como a sociedade funciona. Até as histórias infantis sempre trazem alguma lição. A leitura antirracista nos ajuda a conhecer o mundo por outra ótica, porque dificilmente a pessoa não negra tem contato com esse mundo. A literatura nos ajuda a vivenciar situações que ocorrem no cotidiano da pessoa negra e a ter empatia com o outro. Seja ficcional ou real, esses livros têm o papel de nos ensinar um pouco a dor do outro”, explica o estudante de Direito e ativista do movimento negro Lourivaldo Junior, auxiliar administrativo do Sindicato dos Servidores de Nível Superior do RS (Sintergs).

 

Junior preparou uma lista com indicações que ajudam a navegar neste universo literário plural. Confira, abaixo, as nove sugestões de livros de autoras e autores brasileiros.

 

RACISMO RECREATIVO

Adilson José Moreira

O livro aborda uma questão sempre presente em debates políticos e jurídicos sobre direitos humanos: as expressões humorísticas que reproduzem estereótipos negativos sobre minorias raciais. A obra identifica os elementos centrais do racismo recreativo que encobre a hostilidade racial por meio de humor. Em entrevista à Carta Capital sobre seu mais novo título, Moreira afirma que “o humor racista é um tipo de discurso de ódio, é um tipo de mensagem que comunica desprezo, que comunica condescendência por minorias raciais”.

 

AVESSO DA PELE

Jeferson Tenório

Trata-se de um romance escrito por um cidadão de Porto Alegre que busca escrever sobre identidade e complexas relações raciais. O avesso da pele é a história de Pedro, que, após a morte do pai, assassinado numa desastrosa abordagem policial, sai em busca de resgatar o passado da família e refazer os caminhos paternos. Com uma narrativa sensível e por vezes brutal, Jeferson Tenório traz à superfície um país marcado pelo racismo e por um sistema educacional falido, e um denso relato sobre as relações entre pais e filhos.

 

DE BALA EM PROSA – VOZES DA RESISTÊNCIA AO GENOCÍDIO NEGRO

(construção coletiva)

O que dizer diante do permanente genocídio negro cometido pelo Estado brasileiro? Como descrevê-lo? De que maneira expressar a justa revolta pelo rastro de sangue que os projéteis oficiais deixam nas periferias das grandes cidades? De bala em prosa reúne textos de autores e autoras negras. São pessoas diretamente impactadas pela escalada da violência fardada no país. Angústia e sensação de impotência escorrem pelas vírgulas e pontos finais.

 

TORTO ARADO

Itamar Vieira Junior

No sertão baiano, as irmãs Bibiana e Belonísia são filhas de humildes trabalhadores rurais descendentes de escravos. Com o passar dos anos, a proximidade entre elas vai se desfazendo. Torto Arado é um romance belo e comovente que conta uma história de vida e morte, de combate e redenção. Um dos grandes trunfos é a representação dos descendentes de escravizados africanos para os quais a Abolição significou muito pouco, visto que ainda sobrevivem em situação análoga à escravidão.

 

QUARTO DE DESPEJO

Carolina Maria de Jesus

O livro relata o cotidiano triste e cruel de uma mulher que sobrevive como catadora de papel e faz de tudo para espantar a fome e criar seus filhos na favela do Canindé, em São Paulo. Em meio a um ambiente de extrema pobreza e desigualdade de classe, de gênero e de raça, nos deparamos com o duro dia a dia de quem não tem amanhã, mas que ainda sim resiste diante da miséria, da violência e da fome.

 

COTAS RACIAIS

Lívia SantAnna Vaz

Entender a radicalidade das ações afirmativas e a modalidade de cotas destinadas às pessoas negras, no Brasil, é tarefa de todas as pessoas que prezam e cuidam da democracia. Construído por meio de uma narrativa cativante e segura, o livro nos conduz a uma compreensão histórica do racismo e da resistência jurídica de reconhecê-lo como um dos elementos que estrutura as desigualdades brasileiras.

 

INTOLERÂNCIA RELIGIOSA

Sidnei Barreto Nogueira

Mestre e doutor em Linguística pela Universidade de São Paulo, o autor apresenta um histórico da intolerância religiosa no Brasil, lembrando também de momentos importantes da história da humanidade marcados pela dominação religiosa, como o Império Romano, Idade Média e Nazismo. A partir daí, discute a expressão “intolerância religiosa”, utilizada atualmente para descrever um conjunto de ideologias e atitudes ofensivas a crenças, rituais e práticas religiosas consideradas não hegemônicas.

 

PEQUENO MANUAL ANTIRRACISTA

Djamila Ribeiro

A filósofa e ativista Djamila Ribeiro trata de temas como racismo, negritude, branquitude, violência racial, cultura, desejos e afetos. Em onze capítulos curtos e contundentes, a autora apresenta caminhos de reflexão para aqueles que queiram aprofundar sua percepção sobre discriminações racistas estruturais e assumir a responsabilidade pela transformação do estado das coisas.

 

AMORAS

Emicida

Na música Amoras, Emicida canta: “Que a doçura das frutinhas sabor acalanto/ Fez a criança sozinha alcançar a conclusão/ Papai que bom, porque eu sou pretinha também”. E é a partir desse rap que o autor cria seu primeiro livro infantil e mostra, através de seu texto e das ilustrações de Aldo Fabrini, a importância de nos reconhecermos no mundo e nos orgulharmos de quem somos – desde criança e para sempre.

 

Fonte: Assessoria de Comunicação SINTERGS